sábado, 27 de outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Cais de desmantelamento de Alhos Vedros




As falhas de memória cada vez mais profundas que assolam o comandante ocorrem sobretudo depois de verter, diariamente, o que resta no fundo de um Johnnie Walker.
Então, fica sem saber precisar onde está fundeado; se ordenou ou não o arranque da roda de leme para a casa das máquinas; se o porão ainda se mantém abaixo da linha de água e, a par de muitas outras brancas, qual o número de tripulantes que ainda se mantem a bordo.

Mas as mais gravosas perdas de lembrança, dizem respeito às informações contidas no seu  BI, que desde há muito que o perdeu!





Reserva Natural do Tejo



Mas o que ocultaria a cave para o pai a proibir de levar lá fosse quem fosse? Para mim, que chegava a dar crédito às minhas próprias fantasias, teias peçonhentas de aranhas, infestados roedores, lagartos e rãs embalsamados e talvez mesmo uma porção de esqueletos pendurados nas paredes, escarnecendo da imortalidade.

O mistério haveria, porém, por ser desvendado   quando a amiga, não resistindo à tentação da proibida dentada na maçã,  à luz de poucas velas,  acabou por abrir a porta da cave:

Afinal, um pequeno cubículo onde se apinhavam caixas e caixas de cartão, réguas, uma guilhotina, frascos, tinas, pastas de arquivos e, em cima de uma bancada, um estranho aparelho cuja serventia ignorava.

O que mais relembro, porém, foi aquele momento mágico do finíssimo pincel manejado pela amiga sob uma lupa, avermelhando as flores e o telhado de um casebre; azulando o céu e branquejando as acinzentadas nuvens; colorindo esplendorosamente de verde os campos de uma foto, a preto e branco, tirada pelo pai.



Arrialva





Por entre o intervalo das persianas quase corridas, os feixes de luz  projectando-se  numa das paredes nuas do quarto de um segundo andar.

Fotografia ou, mercê do movimento, cinema, com as viaturas ligeiras e autocarros trepando e descendo pela calçada de Carriche, sem faltarem  os apitos das buzinas e as estridentes sirenes  das ambulâncias.

De qualquer modo, objectos tão reais como a realidade exterior, embora sem cor, e com o trânsito virado do avesso.

Como se a minha rua, ao deslizar pela parede do meu quarto, não passasse de uma série de metafóricas imagens do mundo que me cerca.

domingo, 21 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Trafaria



Bateu-me à porta para se queixar do cartão de memória danificado, e da perda irremediável das fotos, as melhores que tirara em toda a vida.

Conhecendo a pessoa que, por norma, dispensa ouvir o outro, limitei-me a esboçar uma breve careta adequada à situação prevendo que, deste modo, pouparia tempo aos dois…

Ao despedimo-nos, porém, fui sacudido pela lembrança de uma fatalidade que nunca hei de relatar a ninguém:

a convicção de ter feito, em tempos, um conjunto excepcional de imagens, dando conta  da falta de rolo na câmara um dia depois!


E o que eu carpi, inconsolado, sobretudo em relação à foto verdadeiramente digna de figurar na mais prestigiada antologia: a do cavalo!

Sim, a de um lusitano que, por súbito capricho da bela amazona que o montava, se viu obrigado a estacar num charco de água, salpicando tudo em volta, incluindo a objectiva da câmara, certificando, assim, o instante da acção do fotógrafo na captação da cena.

Desde então, deixei de alimentar quaisquer expectativas de repetir tal proeza, contentando-me com uma ou outra foto ligeiramente acima da mediania.

Entretanto, fica por explicar por que as imagens  perdidas são sempre as melhores.