quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

CONVITE


20  sentados
38  de pé

O elétrico é como um álbum fotográfico com mil retratos de personagens de Lisboa. Como os reformados ocupando os existentes 20 lugares sentados; os jovens, dobrados pelo sono pesado da mochila às costas, de caminho para a Escola; os pares de enamorados trocando, entre si, adivinháveis promessas ilusórias de amor eterno...
Variada gente, mais triste do que alegre, que se desloca no amarelo como peixe fora de água, sem esconder a apreensão pelo aumento dos passes e de outros custos que se pagam em vida. Por norma, sempre alheios à campainha que o guarda-freio faz retinir, qual piloto ao leme nos dias de nevoeiro no Tejo…
O elétrico com a imagem de um pendura ou de um cacho deles, encavalitado na popa do carro, aos solavancos, por ruas, largos, praças e velhas calçadas… Ou mesmo de uma fadista, trilhando o xaile com os dedos, enquanto canta, durante a maré de Junho que trás aos velhos bairros de Lisboa a sardinha assada, os cravos e os balões de rua.
E outros mais protagonistas viajeiros, como os pickpockets nos 38 lugares de pé:  saqueadores sobre carris, com chapéus de praia, usados em todas as estações do ano, e uma camisola estendida no braço como se estivesse a secar no arame…
Estes mestres do ilusionismo, fazendo evaporar, num ápice, a carteira a um camone. Incautos turistas que lhes apraz viajar à janela de um 28 ou de outra carreira, sem resistirem ao exercício da sua própria rapinagem de trechos da urbe:
uma panorâmica do rio a partir das Portas do Sol; um clichê à fachada da basílica da Estrela; um clique certeiro à pitoresca Graça; um justo disparo ao polémico São Bento…
Esta gente, de fora, mas com a qual me sinto, fotograficamente falando, mais próximo:
sempre que tomo uma paragem de elétrico qualquer como se tratasse de um cais de embarque para rever e fixar as gentes de Lisboa. Com a indispensável câmara!



SÃO OS SALGUEIROS...



São os salgueiros e aguardam…. Não pelas frias águas de Espanha que arrastam o peixe para longe, mas pelas chuvas que engrossam o rio e o trazem pelo caudal acima.

Só nesta altura é que hão de soltar as raízes da terra como as mandrágoras, mas sem um único grito...

E fazerem-se às águas, quais barcos engalanados para a festa.

MESTRE DO CACILHEIRO


Em vez do vai e vem de um baloiço, o inesperado estremecimento contínuo das madeiras e metais, a bulir com os nervos.

Em vez do penetrante cheiro à maresia, os vapores negros do gasóleo a entupirem as narinas.  

Em vez das vozes humanas, o compasso do motor a sacudir o coração e os tímpanos.

E assim se desfizera, num ápice, a imaginada ida e volta  até à outra Banda.

Claro que me recompus, mas insistir em sonhar repetir a travessia, nunca mais…

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

( Salvaterra de Magos)


O Tejo, a olho  nu, é sempre menos belo que a visão do Tejo na fotografia. De outro modo, por que haveria de ocupar as mãos com a câmara  em vez de as enterrar nos bolsos?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

PORTO DA PALHA


E sempre que o Tejo ceifa a vida a um pescador, tarde ou cedo, acabará  por galgar as margens com as lágrimas vertidas pela mulher que ficou viúva.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

PARQUE DA RIBEIRINHA ( Samora Correia)


O que faltará às sombras dos salgueiros feitos troncos e ramos de água? Talvez a folhagem. Ou tão só  desatarem as suas raízes da terra, abandonado-se aos caprichos da corrente errante!

VALA DE SALVATERRA DE MAGOS


Eu é que fecundo as éguas, e não o vento! E piso as flores. E relincho, celebrando a chegada da Primavera.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

SOBRE UMA FATURA DE 1989


A fatura data de 1989 e cheira como um trapo velho, a mofo. Mas ainda se retira dela o nome de um tal  Hermínio Vareiro Ramos,  retalhista  que, num certo dia de Verão, arrematou 180 Kgs de sardinha e 200 de carapau, tratando logo de conduzir o pescado ao  Mercado de Santarém.

E, se quisesse  ir mais longe na história deste homem, que largou a captura do peixe de rio para se prender à pesca  na Lota de Peniche, o caminho seria tão sinuoso como a vereda que nos conduz à que foi a sua casa implantada à borda de água, entretanto, quase desfeita.

Tinha viatura própria, e não pagava IVA. Mas tudo isto, que importância tem?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Palhota


Todo o dia ensonado, acabei por me abandonar aos sonhos, enquanto caminhava.

Um dos mais singelos terá sido o do barco sobre a areia  e debaixo da chuva de ramos dos salgueiros.

Com o teu nome voltado do avesso!

GINJAL


O vinho evaporou-se dos barris e transformou-se em  nuvens lilases; os blocos de gelo deslizaram pelas rampas do cais, diluindo-se na água sem deixarem quaisquer vestígios; o carvão foi dispensado do trabalho das máquinas que acabaram por enferrujar; os iscos de pesca apodreceram.

Entretanto, as sardinhas, dentro das latas abriram as tampas e, ganhando asas, voaram para o mar alto. Todo o fogo, de súbito, deixou de arder e, pouco tempo depois,  nunca mais se viu passar pelos olhos uma fragata ou um varino. Como se tivéssemos cegado para sempre!

 Foi então que apareceram os roedores, determinados em construírem um universo labiríntico de galerias de modo a que nenhum intruso, ao entrar nelas, alguma vez saísse…

E, ao que consta, foram bem sucedidos tal como as pombas obstinadas em  arrancarem, uma a uma, as telhas dos telhados dos armazéns ribeirinhos!



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

LISBOA



Com este lápis se escreve uma página sobre Lisboa a preto e branco!



BOCA DO VENTO ( Almada)

PORTO DAS MULHERES ( Chamusca)

PORTO DA COURELA ( Almeirim)




Serpenteando pelo rio, o que procuram é interromper o seu curso natural. Enquanto isso, vão devorando as raízes dos salgueiros e cavando sulcos no fundo da água como se fosse em terra.

Segundo alguns nativos, encarnam os espíritos terríficos das correntes fluviais que são muito difíceis de expulsar…

Como certos pesadelos!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

BUQUÊ À BORDA DE ÁGUA (Benfica do Ribatejo)


Nem sempre a questão  está na oferta do buquê, mas na atenção que a florista dedicou ao seu arranjo! Neste caso, à fotografia.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

EXTRAÇÃO DE INERTES (Crescido)



Em vez de uma pepita aurífera ou de um cristalino e já lapidado diamante, o achado de um peso de rede, em cerâmica, com duas perfurações que me fixam, quais olhos atentos ao que farei com ele! 

Então, interrogo-me: será que devo devolver-te à corrente da água, num amplo arremesso? Abandonar-te nestes estratos de cascalho e areia? Ou tornar-te num objecto tão pessoal como uma agenda, um anel ou um relógio? 

Optando pela última hipótese, acabei por ampliar mais ainda o leque de perguntas sobre a peça encontrada, que passou a gozar do privilégio  apenas concedido até agora ao teu retrato, colocado na minha escrivaninha. 

Entretanto:quem saberá determinar-te a idade? A que malhas de rede te aparelhaste? E que oleiro te modelou e cozeu, antes de servires nas artes da pesca?

À PESCA... (Cais do Sodré)


E estava o homem à pesca, com uma cabeça azul de peixe-espada, quando deu pelo camaroeiro pesar a chumbo! Aí, fez dois pontos de espanto com as sobrancelhas, e puxou  morosamente o aparelho.

Podia lá ser: uma arma! Não das barracas de vai um tirinho , ó freguês, sequer de alarme para espantar pardais mas, a sério!

E logo alguém, como se tivesse mordido a cena do alto e descido, de repente,  em pára-quedas, pergunta ao homem:

“Dispara?”

“Não sei!”




RÍO TAjO


Aqui soava ao silêncio de uma pradaria e coisas  de western americano. Foi então que saquei da câmara, e me pus a disparar certeiramente contra o tempo: tiro a tiro para poupar película.

À larga distância daquele dia, o certo é que ainda ouço, com gozo, o ruído das detonações a entrarem pelo ouvido e a percorrerem-me a espinha…

Foram e são uma das raras formas de me sentir vivo. E tudo tem explicação!

PALHOTA


O dia é o meu laboratório.  E o rio, uma tina onde  revelo um trecho da realidade: embarcações, céu, salgueiros enraizados nas margens da terra e em  mim, o que passa...

Fora isto, mais exacta que esta cópia da natureza, só a tua imagem refletida no espelho a cada noite em que te despes…

domingo, 29 de janeiro de 2012

O NEGRÃO ( Vila Franca de Xira)



Ó negrão, será que viste
 a lua de sabão?
E a ponte a boiar no rio
Como na fotografia? 

Ó negrão, será que viste
Tão ao gosto da  vizinha 
Três naperons made china
Pelo preço de um eurão?

E  o fogareiro ferruginoso
Será que o viste, ó negrão
A chamar por ti, às postas
Para te fritar,  com limão?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

VILA VELHA DE RÓDÃO


Deixo-vos uma metade do meu retrato. Se ao cabo de algum tempo, receberdes a outra metade que levo comigo, sabereis que cheguei: são e salvo!

Terá sido esta a fala de um dos emigrantes clandestinos, na véspera de dar o salto!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

VILA FRANCA DE XIRA



Entre um ramo agilmente composto pela florista da minha rua e a rapinagem de um único botão de rosa silvestre no velho quintal  da vizinha, prefiro a última escolha.

Não apenas pela jarra ser pequena mas, sobretudo, para que a sala possa respirar tão bem como o meu pulmão. Ou melhor ainda!

FOZ DO CIFUENTES



Tanto quanto sei,  é que o Tejo nasce onde bebo o  último copo . Seja no Ginjal ou no Ponto Final; no Cais das Colunas ou num bar de Alcântara.


Numa ou noutra margem, mais ou menos a montante, quando não mesmo num imaginário ponto situado no mar alto do atlântico! E nada mais sei depois de vazado o copo.

Salvo, que o rio logo se entorna pela península adentro galgando fragas e  escavando sulcos até atingir uma fria bica de água, em Albarracim,  onde desagua, não sem antes se derramar perdidamente por outras mais fozes:

Como a da Venta del Cojo, a do Cântaro Magro, a da Fuente del Cano, a do Moinho da Fonte… 

A de Cifuentes, onde tive um caso com uma cigana - o que não vem a propósito -  e só por uma unha negra, não me esvaí em sangue, com o meu aparato...

Ou teria sido um pouco antes, em Gargoles de Abajo?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

( Vila Nova da Barquinha)


Nunca viu as águas tão espreguiçadas como agora. Nem a correrem tão no fundo… Antigamente, não: chegavam ao que é hoje o lugar da sua  horta continuando a trepar até à rua da Barca onde se situava o  Cais do Vapor.

E era a partir desse ponto que zarpavam os batelões para Lisboa  sem a gente alguma vez os ver. 

Não porque estivéssemos a dormir. Mas porque a pilha de fardos de cortiça era tão alta e pesada, que não havia, proa, ré, nada  de embarcação alguma que, de tão rebaixada,  se mostrasse a navegar pelo rio abaixo…

Trabalho de varinos, já se vê! E não de cagaréus, aguardando pelos lances ao sável no breu da noite...

ESTENDAL ( Vila Franca de Xira)



E é quando os estendais de roupa já tinham, desde há muito, ( fotograficamente falando) passado de moda, que  eu insisto em filtrá-los pela retina da câmara.

Ainda hoje, não sei muito bem como eliminar estas anacrónicas tendências... 

Acelerando como o canoísta?

domingo, 15 de janeiro de 2012

SENHORA DA SOLEDADE ( Arrentela)


Grande foi a calamidade, para muitos párocos de então, atribuída à acção divina numa manifesta reprovação a algum absentismo que se vinha observando nas igrejas.

Seja como for,  o dia “escolhido” para o maremoto, que assolou  Arrentela, terá obtido a concordância de todos os Santos já que a tragédia ocorre no preciso dia - tão virtuoso, quanto festivo - dedicado à celebração daqueles.


E é como contraponto a este eventual desígnio da Providência e dos seus acólitos, especialmente  os mais próximos de si, que a senhora da Soledade acabaria por protagonizar uma ação meritória, fazendo recuar as águas...


Proeza tida por milagre na voz do sacerdote que abençoou o rio e as duas embarcações ancoradas ao largo...

CAIS DAS COLUNAS



Ele é o Paco, por alcunha o Anão, o galego, que chegou a ser contratado por uma equipa de basebol na Malásia;  o rufia do cigano a impingir pedras de eucalipto dissolvido em lama tudo triturado pela dentuça  de ouro  do seu patriarca; a Gertrudes que, em findando o lacrimoso peditório à porta  Santa Engrácia, logo vem espalmar-se como um sáurio ao sol nas pedras do Cais.

Ele é o Mamadu,  que fez a mesma guerra do que eu, cantarolando uns blues acompanhados por umas batucadas com a sua muleta de DFA ;  ele é  o Bósnio, o guitarrista  que me convidou para fazer uma  reportagem no seu dia de núpcias acaso viesse a casar, e não casou; ele é o caboverdiano,  a gingar com o andamento de uma  coladeira, e a boina à  Alves Redol dos Avieiros.

E ele é o sem abrigo,  agarrado às calças para não baixarem para além dos joelhos,  e a Fafá da Linha, a repetir-me certa pergunta  que só a mim diz respeito…

E são, depois, os camones a fazerem turismo da classe média-baixa e baixa; os bêbados a enfrascarem-se de tinto e Tejo;  os reformados à pesca de mais um por de sol para somar às poucas folhas que sobram na sua agenda de vida; e os engatatões, ao fim da tarde,  por uma noite; os mirones com as mãos enfiadas nos bolsos;  os pares  enchendo o cais de  promessas de amor  insalivadas de beijos; os fotógrafos amadores e assim-assim, todos digitais, salvo os que excepcionalmente pararam no tempo dos 35 mms. 

Todos meus amigos ou a caminho disso, salvo o facho com a sua gabardine de sempre, azul e adourada com botões metálicos da Armada,  a bandeira nacional na lapela, a dar pão diariamente às gaivotas que não fazem a mínima ideia do traste que ele é… 

Até eu sou amigo de mim mesmo: 

quando distraidamente me sento à borda de água, a coçar-me do formigueiro de uma noite mal dormida e das  fotos que tiro. Ou quer devia ter tirado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

OUTROS SERES ( Alcochete?)



Ignora-se o aspecto físico dos ascendentes mais arcaicos, mas é bem provável que fossem dotados de grandes asas capazes de provocarem incontroláveis tempestades…


Os mais recentes, não menos robustos e letais que os seus antepassados, são revestidos por  espessas escamas de amianto, deslocando-se à semelhança dos Panzers sobre lagartas pelos  vastos areais… 


Com os seus apêndices, capazes de perfurarem o  ferro, gozam de uma supremacia que excede de longe todos os seres mais titânicos, seus contemporâneos, incluindo o Gromiti da floresta.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

JÚLIA MARGARIDA GUERRA



Lembra o que foi a canseira das suas andanças, de canastra à cabeça, atirando os pregões ao ar para as freguesas como quem joga às águas o isco para o peixe.

E do seu rapaz que, de acordo com os preceitos antigos, não faltou com o barco no dia do casamento, tão calafetado como uma pipa pronta a receber o vinho novo e não menos areado que os seus brincos.


E apetrechado, com as alfaias e a rede varina para os primeiros lances - sempre os melhores - ao sável e á saboga, mal as águas começassem a amornar para a desova e para o amor a bordo do “ Ribatejo”.

E tudo isto, muito antes  da embarcação  se colorir de azul e vermelho.  E mais ainda da viuvez!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

JOAQUIM ELIAS PERICLE



Vive a dois, três remos  do rio e é à noite que melhor ouve o rumor das águas  bem como o do salgueiro plantado por si.

Mas também o ranger do cabo que prende a  sua  velha embarcação, com  os nomes dos dois netos colados à proa, alternado com outros sons  antiquíssimos:

como  o varejar das oliveiras quando tinha dez anos, a trabalhar com o pai, um vieirense, também ele incapaz de adormecer  sem antes ouvir o  restolhar da corrente e das ramagens...

Não fosse toda a "auga"  galgar  para outras bandas distantes  ou abrir  uma cratera  e esgueirar-se pelas entranhas profundas da terra. 

Para nunca mais ser visto.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

CASTELO DO ALMOUROL ( Praia do Ribatejo )


Zarpa-se até uma ilha situada a pouco mais do que duas braçadas de uma e outra margem do Tejo.

Após um brevíssimo instante, eis-nos em terra, havendo a partir daí que aceder às portas do castelo iniciando uma pequena marcha. 

Em lá chegando, e acaso tenha horror ao vazio, o que fazer? Talvez imaginando-o ocupado com algumas figuras de antanho: 

Legionários romanos asfixiados nos seus elmos; robustos visigodos ostentando adornadas bainhas a ouro e pedrarias; gente mourisca com turbantes, dentes e cavalos brancos…

Se a visita ocorrer durante o pino do verão, talvez possa mesmo aprofundar mais ainda os seus dotes visionários, surpreendendo Afonso Henriques na implementação de novas medidas, como a do aumento das cobranças de portagem sobre produtos e pessoas, com destino a montante ou jusante da fortificação...

Mas se à tentativa de ressurreição destas figuras, continuar a sentir-se incapaz de idealizar aquele espaço com algum recheio e vida interior, o que fazer de novo ?

Talvez, ao sair por onde entrou, cantarolar  a letrita do Vinícius de Moraes evocando  certa casa muito engraçada que "não tinha teto, não tinha nada”

PEIXEIRAS CABOVERDIANAS ( Cais do Sodré)


Ao tempo das varinas, com as suas canastras de verga, haveriam de suceder, décadas depois, as caboverdianas com  uma bacia de plástico à cabeça, fugindo com os carapaus, os linguados, as douradas, das autoridades que as perseguiam em infrutíferas correrias…

Que fôlego não lhes faltava para escalarem degraus, pularem sobre sebes e canteiros; subtraírem-se, momentaneamente, à visão dos seus predadores, atrás de uma viatura, árvore ou do quiosque existente no Jardim Roque Gameiro!

Certo, é que volvido todo este tempo, ainda dou por mim a perguntar-me se não seria o Homem ao Leme, assente sobre o seu  plinto, a favorecer a fuga das mulheres que umas vezes se punham,  galhofeiramente, a saltitar e a rir à sua volta....


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

PESCA À CANA ( Alcântara)



A pesca à cana deixa-me como num apeadeiro à espera do  comboio que só chega no dia seguinte. E o desassossego cresce tanto mais quanto a bóia desce e sobe, num falso alarme de haver peixe, ou a ponta da cana verga apenas por acção de um sopro de ar…

Pescar, sim, mas a meu gosto:

à câmara, com o olho esborrachado contra o visor, carreto próprio para 35 mms.,  sem óculos de sol e camaroeiro, aceitando fazer, de quando em quando, uns curtos lançamentos com chumbadas de pixels e com um disparador que, de tão silencioso,  parece ter sido feito de algodão… 

Quanto aos resultados conseguidos com as minhas artes, não asseguro, porém,  que sejam mais profícuos que os obtidos graças às mordeduras no anzol…

Mas sobre isto, hei-de falar um dia!

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