sábado, 20 de outubro de 2012

Proa à Terra



Devia ou não ter pressa em completar o álbum de família? Afinal, só faltavam as últimas duas folhas!  Ultrapassar o meio e não atingir o fim, não é menos stressante do que retardar ad eternum o início seja do que for…

Sim! O melhor,  seria arrumar o álbum de vez, convidando uns poucos parentes para uma sessão fotográfica à hora do chá. Mas quem?

Sem dúvida, as mais narigudas, velhas e beatas da família: as tias Ângela, Lurdes e Beatriz.

E foi assim que, numa fracção de segundo, com meia dúzia de silenciosos disparos, fez a festa!

Depois, tratou de fazer desaparecer as marcas de batom no bordo das chávenas, os cabelos oxigenados em cima do sofá, uma prótese dentária, as poças, os fios e os salpicos espalhados de sangue.

Por fim, digitalizar e imprimir os retratos obtidos para concluir e selar o álbum de família.




sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Zona Ribeirinha de Lisboa



Um dia destes admite deixar as fotos de rua para se dedicar unicamente à fotografia das suas próprias imagens mentais...

Para tal,  apenas terá que se abandonar ao marasmo almofadado do sofá, e enlouquecer!

(Para quem está de fora, o processo afigura-se  fácil)


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

De Almada Sobre o Tejo



A realidade é cega. Em espelho algum se revê. Ignora-se. Só nós, águias, lobos, cordeiros e homens, quais costureiros concebendo uma indumentária para o corpo, tecemos as imagens do mundo.

Tal como quando inventamos as palavras para dar voz à coisa muda.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Póvoa de Santa Iria

O Sempre Tejo


Ao que consta, a  Garça do Lezeirão terá enlouquecido na altura em que se pôs a  reproduzir  todos os lamentos, pios, mágoas, choros e  cantos das demais aves nativas e de arribação com as quais se cruzava.


E até mesmo sons de outra natureza, como o  do chapinar dos peixes à tona de água, o estalido das pinhas  secas a despregarem-se dos ramos, para já não falarmos dos ruídos inaudíveis pelos humanos:

Como  o das frenéticas discussões entre as formigas nos seus carreiros, o da locomoção dos escaravelhos sobre a bosta dos cavalos lusitanos,  o bater das  asas das borboletas no tempo do cio...

Mas não é a demência individual da Garça que me instigou a evocá-la, e sim o receio  de que a sua loucura  possa contaminar as demais espécies da ilha, em particular os insectos, os roedores,  os repteis e a mim próprio!

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