sábado, 24 de novembro de 2012

Apanha de Ameijoa



Apesar do estatuto assustador que gozam os  predadores, as suas presas têm vindo a desenvolver algumas capacidades com vista a reduzirem a taxa de mortalidade.

Assim, e através de repetidos confrontos entre si, lograram aumentar não apenas a força das maxilas, como a velocidade de acção, quer na situações de ataque, quer nas de defesa.

Enquanto isso, e mercê de uma severa dieta alimentar associada à ingestão de algas, líquenes e valisnérias, conseguiram endurecer os seus apêndices, tornando-os muito bem capazes de perfurar o próprio ferro.

Com um entusiasmo surpreendente, aplicaram-se em dilatar as conchas onde se abrigam, bem como as bolsas e os tubos por que são compostos, facilitando não só a passagem, mas também a digestão de novos e bem mais encorpados manjares vivos, até aí excluídos das suas ementas.

Apesar de uma especial atenção dedicada aos componentes químicos, sobretudo aos ácidos, com vista a intensificar a seu efeito corrosivo sobre as estruturas ósseas, estas continuam a resistir à dissolução, acabando por ser expelidas.

Entretanto, há quem confie no surgimento para breve de provas que venham credibilizar as afirmações, por muitos consideradas meras fantasias de mau gosto, sobre a extrema voracidade das presas que têm já martirizado alguns dos seus predadores.

O certo, é que o tipo de esqueleto, recentemente pendurado numa das paredes do restaurante que costumo frequentar, tem-me deixado cada vez mais apreensivo quanto à eventual veracidade de tais façanhas atribuídas às ditas presas.

E demais a mais, fazendo eu parte da espécie das vítimas.



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Borda de Água





Falar individualmente com gente avulsa, correndo o risco de não lhe ser prestada uma justa atenção, nunca mais!

Assim, decidiu alugar o anfiteatro do seu bairro para proferir, daí a uma semana, uma comunicação subordinada ao tema:

 “ Instantes decisivos, uma por rolo, mitos e manias”

Embora dotado de facilidade de expressão, sobretudo na esfera doméstica, à medida que se aproximava da planeada alocução, mais se acentuava a dúvida se seria ou não a pessoa indicada para a fazer.

E, para agravar mais ainda as suas apreensões, adveio uma constante má disposição, quebra de apetite, cefaleias, suores, tudo de acordo com o previsto pelos manuais, salvo o estranho formigueiro no corpo…

Mas tudo aguentou até à data da comunicação, tendo sido o primeiro a chegar ao anfiteatro, com vista a distribuir por cada cadeira uma folha volante, mencionando os temas a debater.

Após ter agradecido a presença de todos, logo abordou a questão do “ Instante Decisivo” conceito, quanto a si, historicamente respeitável,  mas  que a era digital levara à falência, mercê  da possibilidade de se efectuarem infinitos disparos ( aqui exagerou) a uma única cena, o que acabaria  por retirar a expectativa da captação do momento único.

E, como resposta à falta de qualquer reacção na sala, arrematou com uns decibéis mais acima do que era seu hábito: 

“Instante decisivo, só o momento da escolha no repescar das toneladas de fotos obtidas, digitalmente, num único dia. Perceberam? “

Dito isto, passou a refutar a ideia de que só muito de longe em longe seria possível obter uma boa foto, considerando tratar-se de uma crença obscura, tola e passadista, ao não levar em conta as inovações tecnológicas incorporadas nas câmaras, que acabaram por facultar um maior controlo do meio pelo operador, aumentando, assim, a taxa de sucesso durante o acto da captação.

Ao finalizar a abordagem da palestra, deu por encerrada a sessão, sem deixar de manifestar o regozijo pelos imaginários aplausos, despedindo-se com um sentido e rasgado agradecimento.

Depois de proceder à recolha, fila por fila, cadeira por cadeira, das folhas nelas depositadas, expeliu profundamente o ar dos pulmões como se o mantivesse retido há séculos, encaminhou-se, já com as chaves tiradas do bolso, para a porta por onde se esgueirou a passo de corrida.



GARE MARÍTIMA DA ROCHA DO CONDE DE ÓBIDOS



Sarilhos Pequenos




Por alguns instantes, sento-me na cadeira e fico a ver o rio. Ou antes: as coisas sem as quais, o Tejo sequer nome algum teria: uma embarcação à vela, uma gaivota que já voou; um pescador à linha, uma criança…

(Quase sempre, fixo a minha atenção apenas numa unidade, seja de que grupo for, para evitar a confusão que há no ser de mais.)

Mas dizia… uma criança como a que passa quase despercebida na imagem, brincando com a areia, sem mais nada que lhe pertença.

Vista da cadeira onde me sento, chego a imaginá-la, enquanto a fotografo, ser eu próprio o fotografado:

ao pé do rio, brincando com a areia, sem mais nada que lhe pertença, afinal, como as coisas que a cercam, também ela a dar nome ao rio!


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Oliveira & Batista


Sarilhos Pequenos


Mestre Jaime da Costa ( Proprietário do Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos)







Mal via a câmara fotográfica instalada no tripé, qual peça de artilharia pronta a disparar,  era sabido que viria  a passar dentro em breve  por um mau bocado...

Mas antes haveria que trepar para o improvisado palanque de madeira onde todos se distribuíam pelas bancadas de acordo com a estatura: os mais minorcas, à frente; os mais matulões, atrás.

Só depois disto é que começava o tormento ao ver-me obrigado a aguardar, sem pestanejar, por um clique a que se seguiria logo outro e outro, sem nunca se prever o fim do tiro ao alvo.

A par da memória desconfortável das lágrimas a embaciarem-me os olhos, conservo ainda uma prova testemunhal ilustrando aquele pequeno suplício:

A da foto cartonada, em formato postal, onde figuro com a cabeça pendendo sobre o ombro direito, em flagrante contraste com a postura aprumada dos demais condiscípulos.


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