quarta-feira, 17 de outubro de 2012

De Almada Sobre o Tejo



A realidade é cega. Em espelho algum se revê. Ignora-se. Só nós, águias, lobos, cordeiros e homens, quais costureiros concebendo uma indumentária para o corpo, tecemos as imagens do mundo.

Tal como quando inventamos as palavras para dar voz à coisa muda.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Póvoa de Santa Iria

O Sempre Tejo


Ao que consta, a  Garça do Lezeirão terá enlouquecido na altura em que se pôs a  reproduzir  todos os lamentos, pios, mágoas, choros e  cantos das demais aves nativas e de arribação com as quais se cruzava.


E até mesmo sons de outra natureza, como o  do chapinar dos peixes à tona de água, o estalido das pinhas  secas a despregarem-se dos ramos, para já não falarmos dos ruídos inaudíveis pelos humanos:

Como  o das frenéticas discussões entre as formigas nos seus carreiros, o da locomoção dos escaravelhos sobre a bosta dos cavalos lusitanos,  o bater das  asas das borboletas no tempo do cio...

Mas não é a demência individual da Garça que me instigou a evocá-la, e sim o receio  de que a sua loucura  possa contaminar as demais espécies da ilha, em particular os insectos, os roedores,  os repteis e a mim próprio!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Catamaran S. Julião


Refeição a Bordo




Como não se esperava que a senhora fosse capaz de embarcar pelo seu pé, uma ambulância transportou-a até à embarcação com tantos ou mais cuidados que os prestados aos bebés ou às namoradas.

E assim, com a senhora tão entrapada como uma múmia, o mestre, depois de zarpar, logo umas poucas milhas adiante, ordenou que se lançasse ferro e cuidássemos de esperar pacientemente pela hora de jantar.

E assim se fez? Não, que nem todos acolheram com agrado as palavras do mestre, achando algumas mulheres que melhor seria dedilharem o terço rezando meia dúzia de surdas orações, enquanto os homens acabariam por entreter-se a bebericar umas frescas minis, retiradas, uma a  uma,  de uma geleira azul de grande formato.

Só em chegando a hora prevista para o repasto, a contento de todos,  foi levantada a tampa de uma grande panela ocultando um adivinhavel refogado de carne, com um tempero verdadeiramente celestial, acompanhado por pão e vinho como só os há no Alentejo.

Acabada a refeição, a noite começou a cair como nos antepassados tempos, envolvendo suavemente de escuro a senhora coberta pelo lençol branco, ao mesmo tempo que o céu ia sendo pontilhado por tímidas estrelas luzindo como rubis, ametistas e esmeraldas…

Então, aí, o mestre disse: “Hora de partir!”e, logo içada a âncora, dali rumamos para o ponto donde havíamos partido a meio da tarde, cabendo a um tripulante retirar o lençol à senhora e depois rodeá-la  com uma série de festivas lâmpadas elétricas.  

Para  que o povo pudesse dar conta da sua real aparição muito antes da embarcação acostar ao cais!





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