domingo, 11 de novembro de 2012

Tejo à Chuva




Como consequência de um naufrágio, o comandante do navio decidiu empreender, conjuntamente com um  único tripulante, uma esforçada caminhada pela água em demanda  de um porto seguro.

E tudo ia bem até o tripulante tropeçar e perder uma bota num montão de  algas, incidente que levou  prontamente o comandante a ordenar-lhe que prosseguisse a marcha.

Ao cabo de algum tempo, porém, e já exânimes, o oficial entendeu por bem descansarem um pouco em cima de uma onda.

Foi então que surpreendendo o tripulante completamente descalço, quis saber a que tal se devia, uma vez que a ordem dada não era para caminhar sem duas botas, mas apenas sem uma.

Então, e perante o silêncio do marinheiro, o comandante não se conteve:

Eis encontrada a explicação, grande imbecil, por não termos até agora alcançado terra firme! “

sábado, 10 de novembro de 2012

Reparação do varino "Sou do Tejo"




Quando ao chegar à estação do metro do Rossio a F 100, acomodada em cima dos seus joelhos, começou a escaldar-lhe os dedos, nem queria acreditar.

No início, ainda julgou tratar-se de um problema seu, de pele ou de cabeça, mas não: as pilhas de volt e meio ardiam como se tivessem sido mergulhadas em água a ferver, sendo que para retirá-las da câmara, teve que munir-se de um lenço e aguardar por algum tempo…

O que fez a seguir, foi dirigir-se, de imediato, à oficina de reparação de um amigo seu, ao qual deixou a F 100 para diagnóstico e orçamento de arranjo.

Não teve que esperar muito pela notícia. Ainda nesse próprio dia, o amigo participava-lhe que, apesar da cuidada assistência prestada à F100, a par da ministração de soro e uma transfusão de sangue, já  não havia remédio: pifara de vez!

De que mal? Ora, da placa central, irreparável, e sem a possibilidade de transplante por haver cessado há muito a sua produção fabril.

Como nunca fora dado a grandes manifestações sentimentais, sequer verteu uma lágrima. Mas já foi assaltado pela dúvida de que a sua recusa em prestar-se ao luto, esteja na origem das suas últimas noites, passadas em claro!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

OIhar




Lembro a barbearia da minha infância como se desde então não deixasse de ter a mesma idade. Da tesoura a esgrimir no ar, a poucos centímetros da pele; da poeira do cabelo solto. Mas, sobretudo, do grande desconforto de permanecer séculos numa posição estática, a olhar para nada, qual estátua desolhada ou, então, quando ao tentar reter outra coisa, me fixava no espelho a ver-me a mim…

A ver-me ! Como se tal fosse necessário. Como se daí viesse, o quê? A ver-me! Como se de um retrato, afinal, se tratasse! Mas feito sem pincéis molhados em óleo ou impresso numa emulsão de sais de prata, em papel!  A ver-me, tal qual eu era, tão só, e sempre numa posição frontal e demasiadamente próximo de mim. A ver-me ali visto, da forma mais crua, quase obscena!

Sem haver por detrás um cenário artificial de um estúdio, uma tela composta por colunas romanas e formas belas de mulheres junto de redondas arcadas de pedra; ou de uma paisagem, a sério, à minha escolha, natural, com um pedaço de céu azul, flores, um regato, uma pastora e cabras; um retrato no espelho a dar-se a ver como é; sem holofotes nenhuns que pudessem jogar com  efeitos de luz e sombra, capaz de polir algumas  arestas; atenuar a presença dos sinais cutâneos e de outros interiores. 

Como o do meu próprio humor, que aflorava à pele e entrava comigo na barbearia uma vez por mês e comigo saía. Ainda pior!

Sacavém


Marginal da Ribeira das Naus




Esgotara a possibilidade de inventar uma desculpa nova aos seus insistentes pedidos para a fotografar.

A falta inadvertida do rolo na câmara ou de um cenário pouco condizente para fundo do retrato já não colava, e o argumento da luz se mostrar demasiado dura era má ideia repeti-lo, sobretudo nos dias enevoados.

Volvida  a idade da dor de dentes, também não se lhe afigurava  sensato evocar uma pulpite, e  a evasiva de ser acometido por uma inesperada cefaleia parecia-lhe de péssimo gosto.

Apesar de tudo, às suas inúmeras e cada vez mais embaraçosas escusas, nunca  abandonara  a obsessiva esperança de vir a ser fotografada pelo sobrinho, sequer a crença dele se tornar num prestigiado fotógrafo.

Hoje, porém, exactamente à hora em que acabara de rever, espreguiçado no sofá, o  Kilas o Mau da Fita, um parente  informava-o pelo  telefone do súbito falecimento da tia há minutos atrás…

Então levantou-se, pegou na câmara, pousada em cima do frigorífico, e saiu para fazer uma série de retratos à tia, com o propósito de seleccionar apenas um: o que lhe parecesse o mais sorridente do conjunto.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Escritório do Estaleiro Naval de Sarilhos Pequenos


Mestre José António Aranha





Há bastantes dias que o patrão tivera a notícia de que a fragata estava pronta. Mas, com um raio, quando é que a surpreenderia a  velejar no Mar da Palha em  direcção a si?

Ora, só com as cheias que, em chegando, permitiriam o lançamento da embarcação à água no estaleiro de Rio de Moinhos e, finalmente, a sua descida pelo Tejo.

Não fossem, porém,  as mãos experimentadas do mestre, com dois tripulantes a seu mando e o vento de feição, quem sabe se o patrão da fragata, passadas tantas décadas, não estaria ainda hoje à sua espera.

O certo é que mal a viu, com um comprimento tão desmedido, sem paralelo algum com qualquer outra embarcação congénere, não conteve uma altissonante reprovação:

 “ Tinham que fazer asneira! ”

E   Asneira  ficou como nome da maior fragata  alguma vez vista a sulcar o estuário  do Tejo, atraindo sobre si o olhar das variadas gentes ribeirinhas de uma e outra Banda: avieiros, estivadores, salineiros, valadores, armadores, arrais e moços... Que nem uma varina do Cesário!




Marina de Oeiras


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