quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Gaio





À noite, contava os mortos. E nem sempre o número encontrado batia certo com o apurado na véspera.

Seja como for, o efectivo dos que haviam já partido excedia, sempre e cada vez mais, o  rol dos viventes.

Só quando chegou a altura de nos abandonar, é que se veio a saber que nunca contara consigo para figurar em nenhuma das duas listas!


O Sempre Tejo




O desgaste do próprio corpo já não se disfarça com nenhuma espécie de maquilhagem. De tanto manuseado, a película de tinta aplicada na janela perdeu o brilho e abriu fendas.

 Entretanto, uma boa parte das palavras gravadas  a branco, como as que indicam as funções  Mode, o BKT, o ISO sumiram-se por completo, sem deixarem sequer  o rasto de uma única sílaba.

E de todo descarnadas são as zonas onde o atrito dos dedos mais se faz sentir, como o disco que comanda as fracções do tempo, ou a patilha que desliza entre as expectativas do on e o fim de festa do off .

Porém, o maior estrago e o mais inquietante de todos,  é o disparador nem sempre reagir ao ser pressionado. Por falta de repouso, distensão muscular, erosão óssea, poeira ou tédio?







quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Marginal de Lisboa




Rebobinou o filme sonhado naquela noite, seleccionando  uma das suas imagens: a mais surpreendente de todas. Depois, com  um cabo USB, logo tratou de a transferir para uma nova pasta no computador.

A partir daí, servindo-se de um programa próprio, começou  a expurgar morosamente da imagem todos os elementos considerados inúteis ou excessivos, bem como a proceder a uma detalhada acção de limpeza. Mas não só.

Também a reenquadrá-la a seu gosto, acentuando-lhe o contraste, a densidade das cores, o brilho, até  acabar por  imprimi-la, em papel de médio formato, mate, por forma a não lhe agredir os  olhos.

E tão hilariante se mostrou com o resultado obtido que, de imediato, pendurou a imagem na parede do seu quarto, não sem antes a assinar para todo o sempre, com uma convicção:

por muitas fotos que venha a fazer, nenhuma será capaz  de se equiparar à fantasia deslumbrante daquela sonhada imagem.



domingo, 2 de dezembro de 2012

Cova do Vapor ( 2004)




Recupero uma imagem  
perdida na orla do rio;
( Por pouco a maré
não a naufraga)
e o que vejo nela
como o aceno agitado
de um lenço no ar
é um barco flutuando
sobre as nuvens.

É Julho! Não pode ser outro mês;
o que passado tanto tempo
volta  aqui, impresso
nesta foto, em cujo
verso se diz
( como uma frase
arrancada à intimidade
de um diário),
ter sido tirada no passeio
fluvial que fizemos
ao sabor do vento;

E da promessa
de um poema futuro
que só hoje, tarde,
acabei de escrever!

Estacaria



A dúvida desdobra-se apenas em duas: primeiro, saber qual o número de grãos que devemos adicionar ou  subtrair à duna; depois, a que distância convém ficarmos dela, para uma mais plena fruição.



Alhandra


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