domingo, 3 de maio de 2015

Vila Franca de Xira


Um gráfico estatístico



Um gráfico estatístico composto por relevos montanhosos mais ou menos povoados e vales variáveis em extensão, desertificados.

Ou o eletrocardiograma de uma geografia, onde se regista a passagem numérica por um lugar de uns quantos visitantes. Silenciosos e sem rosto.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sáveis


Tão horríveis



Tão horríveis eram aqueles retratos - pensava- que só não se desfaziam deles por recearem ser bafejados com algum sopro fatal e arrastados depois pelos cabelos até ao fundo das trevas ...

De outro modo, e estando todos mortos há muito, por que haveriam de continuar expostos nas paredes, mesinhas de cabeceira e cómodas assim de pé como lápides sepulcrais?





domingo, 26 de abril de 2015

De repente, gritava-se


                                                                                            
                                                                                                       


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Par



Era tão velho que achava ter sempre razão. Ao contrário de mim, que continuava a levantar dúvidas sobre uma boa parte das coisas, com respostas há muito encontradas.



terça-feira, 14 de abril de 2015

O patrioteiro



O patrioteiro que saíra para a minúscula europa, lambia-se com o cherne; o que ficara no Bairro, lambeava-se com a sardinha que - dizia - era boa apenas quando os tomates começavam a alourar nas searas.  

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Parece fim de dia



Parece fim de dia, mas não. É princípio de tarde, com mulheres, crianças e cães abrigados na sombra de um sobreiro. Assim, a hora mais tardia não passa de uma ilusão; de um jogo desajeitado, feito a partir de dois ou três cursores, que movo para montante ou jusante de mim.

O avanço da hora resulta, pois, de uma mera manipulação; de um ilusionismo informático; de um truque abusivo, já que a luz revelada na imagem subverte a do instante do disparo!

Dito de outro modo: a ficção apressa a noite, enquanto toma dianteira à realidade!


sábado, 11 de abril de 2015

Vila Franca de Xira


Ao António Flor, a quem não telefonei...

Caminhando


O peixe vai na rede, e não tarda a subir ao palato e depois às nuvens. Tudo para que se cumpra o ciclo da água na terra, e a chuva caia sob a forma prateada das escamas. Apenas há que acender o lume!


domingo, 5 de abril de 2015

Dada a ordem aos caminhantes



                                       Ao amigo António Marrachinho


Dada a ordem aos caminhantes de estacarem, ainda presumi que tal se devesse à súbita aparição de um arguto felino de médio porte, de um réptil a digerir um incauto roedor ou à ameaça de uma ave de rapina a picar sobre as nossas inocentes cabeças; mas sequer de uma ibis, garça real, pernilongo ou esquadrão de esbeltos e rosáceos flamingos se tratava.

O objecto causador daquele stop instantâneo, não passava afinal de uma ave minúscula a que o guia deu nome, sacudindo-se no topo de um caniço e que o contraluz tornava impossível de vislumbrar a cor da sua plumagem.

Mas fosse qual fosse a espécie, a sua estatura era tão minorca como o mais comum dos pardais que, a par das flosas, pintassilgos, piscos e toutinegras, foram alvo da minha mira certeira juvenil: tanto à fisga como à pressão de ar, que o uso de armadilhas, com a formiga de asa como isco, não dava comigo.

Tão amante fervoroso de imaginários safaris, quanto vil opositor de subtis dietas vegetarianas, como poderia hoje ceder ao exercício ascético e contemplativo das avezinhas, em detrimento de uns passarinhos na frigideira, temperados com azeite, sal, alhinho e louro?

Mesmo que tenham feito “os ninhos com mil cuidados”, para o odioso selvagem que fui, tarde demais!


E a cada página folheada



                     Ao amigo e colega de trabalho, Rui Fabião: imagem e texto.



E a cada página folheada, um morto e outro e outro morto. Uma sucessão quase imparável, interrompida apenas quando a foto é de uma criança, jovem mulher ou homem, e que hoje estão bem, mal, assim assim na vida.

Mas estes, os vivos, contam-se pelos dedos, que os retratos tirados há cerca de uma década foram quase todos a velhos, bem mais numerosos na aldeia. Muito mais.

E penso como se nunca tivesse pensado antes: a morte não tem fim. Está sempre em marcha e vem aí....

Depois, fecho o livro de fotografias, abandonando-o sobre a mesa, com a contracapa voltada para o teto da casa.  E despeço-me: Adeus!


sábado, 28 de março de 2015

quinta-feira, 26 de março de 2015

Era homem cauteloso




Era homem cauteloso. Assim, ao iniciar a travessia pedonal, calculou com precisão a enchente da maré por forma a assegurar que o seu retorno ao ponto de partida haveria de efetuar-se antes das águas inundarem por completo o extenso areal.

Só não previu o encontro com aquela alma taurina que, após ter irrompido pelas malhas da cerca, logo, de cornos em riste, investiu contra a sua figura.

Mais tarde, à hora de recolher o gado, não deu o ganadeiro por falta de nenhuma cabeça. Mas quanto ao homem cauteloso, ninguém que o viu dirá o mesmo.



ESCAROUPIM




domingo, 8 de março de 2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Aos seis anos já fotografava.


Aos seis anos já fotografava! Ou terá sido durante a sua nutrição na placenta? Certo é que mencionar no currículo a tão precoce vocação, impressiona tanto ou mais do que um certificado do seu talento.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Quando levantei a câmara para o céu


DEDICADO AO AMIGO CAMINHADOR ANTÓNIO FAZERES


Quando levantei a câmara para o céu, nem queria acreditar: uma carocha tão minúscula como uma escama de caspa, em desatinadas corridas pelo relevo das nuvens, entenda-se, por uma das superfícies óticas da nikon. Mas qual? Talvez pela objetiva, foi o que me ocorreu.

Mas quando me fixei na observação da lente, logo me apercebi de como aquela suposição se revelara infrutífera. Salpicada por uma ou outra partícula de pó, nenhuma delas poderia passar por um organismo vivo e, de mais a mais, tão animado como um daqueles vorazes glutões que entram nos jogos eletrónicos.

Mas por que não terei optado, de imediato, pelo visor da câmara, terreno, porventura, bem mais propício ao acolhimento daquele ser quase imperceptível?

O certo, é que também aí, não encontrei o mais ténue sinal de vida.

Que diabo, exclamei, enquanto admitia que algum sopro de ar ou gesto meu tivesse já sacudido aquele monstro para o cosmos abissal da Avenida da Ribeira das Naus por onde me passeava com a câmara.

E para me certificar da validade desta hipótese, voltei a apontar a máquina para as nuvens, acabando por deparar com a presença do animal, ainda mais elétrico do que antes, descrevendo circuitos retilínios em todas as direções como se intentasse despistar um obstinado perseguidor.

Eureka! Mas por que não me tinha ocorrido inspecionar prioritariamente a lente traseira da 28mm ?

Mal contendo a ânsia de esmagar aquele vil hospedeiro, tinha por certo que, desta vez, haveria de acertar na muche. A verdade é que, de novo, as expectativas saíram goradas.

Entretanto, com a minha impaciência a crescer  face às defraudadas buscas, cheguei mesmo a admitir que tudo não passasse de um animal, sim, mas acantonado estritamente na minha cabeça.

Mas não. Ao apontar de novo para o céu haveria por surpreender através do visor da câmara, aquele óvni a correr, estonteado, por entre as nuvens.

É então que saco a objetiva do corpo da câmara para analisar o espelho refletor e, de seguida, a tela translúcida onde, pasme-se, acabaria por surpreender uma espécie de poeira a rabiar de um lado para o outro.

Não havia dúvida. Tinha achado o animal. Era aquilo! E desta feita, só precisaria de desferir, com o dedo indicador umas cegas, contínuas e enraivecidas pancadas na tela despolida até o bicho ir ao tapete para nunca mais se levantar.

E foi o que fiz, após ter-me apercebido de que a acção de morticínio em vista, só poderia ser levada a cabo depois de remover cuidadosamente a tela, já que o dito micróbio se encontrava na sua face posterior. 

Finalmente, nunca como nesse dia, e após a operação de limpeza, as nuvens me pareceram tão convidativas a uma flutuação pelo ar. 

Assim como se faz com uma embarcação à vela, e o vento de feição.








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