terça-feira, 31 de janeiro de 2012

BUQUÊ À BORDA DE ÁGUA (Benfica do Ribatejo)


Nem sempre a questão  está na oferta do buquê, mas na atenção que a florista dedicou ao seu arranjo! Neste caso, à fotografia.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

EXTRAÇÃO DE INERTES (Crescido)



Em vez de uma pepita aurífera ou de um cristalino e já lapidado diamante, o achado de um peso de rede, em cerâmica, com duas perfurações que me fixam, quais olhos atentos ao que farei com ele! 

Então, interrogo-me: será que devo devolver-te à corrente da água, num amplo arremesso? Abandonar-te nestes estratos de cascalho e areia? Ou tornar-te num objecto tão pessoal como uma agenda, um anel ou um relógio? 

Optando pela última hipótese, acabei por ampliar mais ainda o leque de perguntas sobre a peça encontrada, que passou a gozar do privilégio  apenas concedido até agora ao teu retrato, colocado na minha escrivaninha. 

Entretanto:quem saberá determinar-te a idade? A que malhas de rede te aparelhaste? E que oleiro te modelou e cozeu, antes de servires nas artes da pesca?

À PESCA... (Cais do Sodré)


E estava o homem à pesca, com uma cabeça azul de peixe-espada, quando deu pelo camaroeiro pesar a chumbo! Aí, fez dois pontos de espanto com as sobrancelhas, e puxou  morosamente o aparelho.

Podia lá ser: uma arma! Não das barracas de vai um tirinho , ó freguês, sequer de alarme para espantar pardais mas, a sério!

E logo alguém, como se tivesse mordido a cena do alto e descido, de repente,  em pára-quedas, pergunta ao homem:

“Dispara?”

“Não sei!”




RÍO TAjO


Aqui soava ao silêncio de uma pradaria e coisas  de western americano. Foi então que saquei da câmara, e me pus a disparar certeiramente contra o tempo: tiro a tiro para poupar película.

À larga distância daquele dia, o certo é que ainda ouço, com gozo, o ruído das detonações a entrarem pelo ouvido e a percorrerem-me a espinha…

Foram e são uma das raras formas de me sentir vivo. E tudo tem explicação!

PALHOTA


O dia é o meu laboratório.  E o rio, uma tina onde  revelo um trecho da realidade: embarcações, céu, salgueiros enraizados nas margens da terra e em  mim, o que passa...

Fora isto, mais exacta que esta cópia da natureza, só a tua imagem refletida no espelho a cada noite em que te despes…

domingo, 29 de janeiro de 2012

O NEGRÃO ( Vila Franca de Xira)



Ó negrão, será que viste
 a lua de sabão?
E a ponte a boiar no rio
Como na fotografia? 

Ó negrão, será que viste
Tão ao gosto da  vizinha 
Três naperons made china
Pelo preço de um eurão?

E  o fogareiro ferruginoso
Será que o viste, ó negrão
A chamar por ti, às postas
Para te fritar,  com limão?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

VILA VELHA DE RÓDÃO


Deixo-vos uma metade do meu retrato. Se ao cabo de algum tempo, receberdes a outra metade que levo comigo, sabereis que cheguei: são e salvo!

Terá sido esta a fala de um dos emigrantes clandestinos, na véspera de dar o salto!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

VILA FRANCA DE XIRA



Entre um ramo agilmente composto pela florista da minha rua e a rapinagem de um único botão de rosa silvestre no velho quintal  da vizinha, prefiro a última escolha.

Não apenas pela jarra ser pequena mas, sobretudo, para que a sala possa respirar tão bem como o meu pulmão. Ou melhor ainda!

FOZ DO CIFUENTES



Tanto quanto sei,  é que o Tejo nasce onde bebo o  último copo . Seja no Ginjal ou no Ponto Final; no Cais das Colunas ou num bar de Alcântara.


Numa ou noutra margem, mais ou menos a montante, quando não mesmo num imaginário ponto situado no mar alto do atlântico! E nada mais sei depois de vazado o copo.

Salvo, que o rio logo se entorna pela península adentro galgando fragas e  escavando sulcos até atingir uma fria bica de água, em Albarracim,  onde desagua, não sem antes se derramar perdidamente por outras mais fozes:

Como a da Venta del Cojo, a do Cântaro Magro, a da Fuente del Cano, a do Moinho da Fonte… 

A de Cifuentes, onde tive um caso com uma cigana - o que não vem a propósito -  e só por uma unha negra, não me esvaí em sangue, com o meu aparato...

Ou teria sido um pouco antes, em Gargoles de Abajo?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

( Vila Nova da Barquinha)


Nunca viu as águas tão espreguiçadas como agora. Nem a correrem tão no fundo… Antigamente, não: chegavam ao que é hoje o lugar da sua  horta continuando a trepar até à rua da Barca onde se situava o  Cais do Vapor.

E era a partir desse ponto que zarpavam os batelões para Lisboa  sem a gente alguma vez os ver. 

Não porque estivéssemos a dormir. Mas porque a pilha de fardos de cortiça era tão alta e pesada, que não havia, proa, ré, nada  de embarcação alguma que, de tão rebaixada,  se mostrasse a navegar pelo rio abaixo…

Trabalho de varinos, já se vê! E não de cagaréus, aguardando pelos lances ao sável no breu da noite...

ESTENDAL ( Vila Franca de Xira)



E é quando os estendais de roupa já tinham, desde há muito, ( fotograficamente falando) passado de moda, que  eu insisto em filtrá-los pela retina da câmara.

Ainda hoje, não sei muito bem como eliminar estas anacrónicas tendências... 

Acelerando como o canoísta?

domingo, 15 de janeiro de 2012

SENHORA DA SOLEDADE ( Arrentela)


Grande foi a calamidade, para muitos párocos de então, atribuída à acção divina numa manifesta reprovação a algum absentismo que se vinha observando nas igrejas.

Seja como for,  o dia “escolhido” para o maremoto, que assolou  Arrentela, terá obtido a concordância de todos os Santos já que a tragédia ocorre no preciso dia - tão virtuoso, quanto festivo - dedicado à celebração daqueles.


E é como contraponto a este eventual desígnio da Providência e dos seus acólitos, especialmente  os mais próximos de si, que a senhora da Soledade acabaria por protagonizar uma ação meritória, fazendo recuar as águas...


Proeza tida por milagre na voz do sacerdote que abençoou o rio e as duas embarcações ancoradas ao largo...

CAIS DAS COLUNAS



Ele é o Paco, por alcunha o Anão, o galego, que chegou a ser contratado por uma equipa de basebol na Malásia;  o rufia do cigano a impingir pedras de eucalipto dissolvido em lama tudo triturado pela dentuça  de ouro  do seu patriarca; a Gertrudes que, em findando o lacrimoso peditório à porta  Santa Engrácia, logo vem espalmar-se como um sáurio ao sol nas pedras do Cais.

Ele é o Mamadu,  que fez a mesma guerra do que eu, cantarolando uns blues acompanhados por umas batucadas com a sua muleta de DFA ;  ele é  o Bósnio, o guitarrista  que me convidou para fazer uma  reportagem no seu dia de núpcias acaso viesse a casar, e não casou; ele é o caboverdiano,  a gingar com o andamento de uma  coladeira, e a boina à  Alves Redol dos Avieiros.

E ele é o sem abrigo,  agarrado às calças para não baixarem para além dos joelhos,  e a Fafá da Linha, a repetir-me certa pergunta  que só a mim diz respeito…

E são, depois, os camones a fazerem turismo da classe média-baixa e baixa; os bêbados a enfrascarem-se de tinto e Tejo;  os reformados à pesca de mais um por de sol para somar às poucas folhas que sobram na sua agenda de vida; e os engatatões, ao fim da tarde,  por uma noite; os mirones com as mãos enfiadas nos bolsos;  os pares  enchendo o cais de  promessas de amor  insalivadas de beijos; os fotógrafos amadores e assim-assim, todos digitais, salvo os que excepcionalmente pararam no tempo dos 35 mms. 

Todos meus amigos ou a caminho disso, salvo o facho com a sua gabardine de sempre, azul e adourada com botões metálicos da Armada,  a bandeira nacional na lapela, a dar pão diariamente às gaivotas que não fazem a mínima ideia do traste que ele é… 

Até eu sou amigo de mim mesmo: 

quando distraidamente me sento à borda de água, a coçar-me do formigueiro de uma noite mal dormida e das  fotos que tiro. Ou quer devia ter tirado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

OUTROS SERES ( Alcochete?)



Ignora-se o aspecto físico dos ascendentes mais arcaicos, mas é bem provável que fossem dotados de grandes asas capazes de provocarem incontroláveis tempestades…


Os mais recentes, não menos robustos e letais que os seus antepassados, são revestidos por  espessas escamas de amianto, deslocando-se à semelhança dos Panzers sobre lagartas pelos  vastos areais… 


Com os seus apêndices, capazes de perfurarem o  ferro, gozam de uma supremacia que excede de longe todos os seres mais titânicos, seus contemporâneos, incluindo o Gromiti da floresta.


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