segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Grande amigo de pescar!


Sea Graff


Sea Graff


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Sea Graff


Sea Graff


Sea Graff


Sea Graff


Sea Graff


Sea Graff


Sea Graff


Sera graff


Sea Graff


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

Os retratos de Boubat


Como se apresentam as pessoas retratadas por Boubat? Com frequência de costas e de perfil, a partir de um ponto superior  ou inferior ao plano onde as personagem se movimentam, quando não mesmo surpreendidas  através de um vidro. 
Nos casos  em que as figuras se mostram frontalmente, a pose é óbvia! Quero crer que  o fotógrafo nunca terá constrangido ninguém  com a presença da câmara!

sábado, 15 de outubro de 2016

Por norma, eram eles

Por norma, eram eles que pegavam na câmara para fazerem a foto de família, nem sempre evitando  os triviais comentários das mulheres, face à morosidade do disparo: " Nunca mais  te despachas" ou " Levas um ano de juízo". Provavelmente os mesmos ditos que lhes dirigiam na cama.          



MEMÓRIA

     Memória  




Ergue-se  do chão o tronco de uma pedra
mantendo acesa a sombra antiga.
Uma lâmpada renasce da visão adormecida das mãos
que modelaram a dureza das arestas.
Do céu suspenso da abóbada
à firmeza da coluna, o Tempo - o sempre tempo -
ilumina-se. Emerge.

                                                                                                     Renato Monteiro, in " Ideias", 1987

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O abandono dos corpos


O abandono dos corpos a que se entregam os velhos, os toxicodependentes e outros que não sei bem em que prateleira arrumá-los. Gente que repousa por muito tempo parada, desenhando gestos sem pressa; que dormita sobre um degrau ou um banco de pedra.

Não creio que pensem em nada ou que vejam o que se passa em volta. Só talvez uma única coisa, muito pequena e leve. Também parecem surdos ao bulíçio que os cerca.

Anestesiados de todo, salvo à mornidade do sol. E dizer que, por vezes, os invejo? 

A fotografia é




                                          A fotografia é  o que queremos fazer dela!

O País dos Cheiros


Começa-se pelo cheiro a gasolina como não há em nenhuma outra parte do mundo.  Porque as octanas são de outra etnia ou porque o pulmão sente aí os odores de uma forma diferente. Talvez porque o bafo quente do verão magrebino filtre os odores alterando as essências. O que sei é que sou mais saudavelmente sensível ao cheiro da gasolina marroquina do que às exalações do nosso suposto eucalipto. Enche-me muito mais o espírito. Sem dúvida.

Mas em matéria de identificação deste país pelos cheiros, os que lá vão, para nunca mais repetirem a viagem, costumam ficar apenas pela lembrança da hortelã; os que, como eu, sonham  a cada dia que passa, em retornar, o cheiro da hortelã é apenas  a cor de um arco íris imaginário composto por múltiplos tons....

 Cheira, cheira a perfume de hortelã, que flutua na água fervida para servir e conviver com o chã; cheira, cheira a perfume de hortelã as labirínticas calçadas que se pisam numa velha medina; cheira, cheira à doce erva aromática os panos envoltos  nas cinturas das mulheres. 

Mas não é só a hortelã que se encarrega de impregnar o ar. Há também o odor da carpintaria esculpida a partir do sândalo, do ébano ou da leve Tuya do sul transformada em caixinha de jóias, pente de cabelo ou tabuleiro de damas. 

Há o cheiro redondo, avermelhado ou amarelo das grossas contas de colar de âmbar, que brilham no pescoço das mulheres; o cheiro doce e volátil do haxixe a propagar-se intensamente pela espessura morna das noites de Marraquexe, Ourzazate ou de Chefchauen; o cheiro que se liberta da pimenta, da canela, dos açúcares  torrados, que cobrem as iguarias de mel; há os cheiros das essências contidas na transparência de pequenos frascos de uma velha botica. Há estes e outros múltiplos cheiros que, por vezes, misturando-se com a hortelã, ainda que não a apaguem, mudam o seu hálito obrigando-nos a respirá-la de outro modo. 

Já uma vez, comigo mesmo, me perguntei a que cheiramos nós, os portugueses que vieram de tão longe e que moram aqui há tanto tempo. É verdade que o nosso mercado da Ribeira, em Lisboa, ainda cheira a cacau à noite e a pão e a hortaliça saloios; a peixe de mar e a flores durante o dia. Que o Porto, Coimbra, Évora, Braga cheiram também  a qualquer coisa do campo, do rio ou do oceano que entra pela cidade… Dizem que as mulheres  parisienses deixam um rasto de perfume  à sua passagem quando poisam os passeios de Montmartre. É também conhecido como em Andaluzia, o fumo dos charutos  enche o ar das ruas, dos cafés e dos bares, ao cair da noite.

Na Holanda, em Abril, as tulipas cegam os olhos até se tornarem insuportáveis aos meus, tantas são por tudo que é domínio  da Rainha.... Mas a que cheiram as rubras, amarelas, brancas ou até as recentes negras tulipas holandesas? A menos que plástico, a bem dizer a nada! 

Tanto quanto sei, o prazer de uma pequena tontura provocada por um cheiro inalado em qualquer parte do mundo meu conhecido, faz-se sentir apenas num ponto determinado: rua, bairro, avenida, praça ou jardim e por algo perfeitamente referenciado. Ora, por Marrocos é todo o país que cheira  e se dá a cheirar. Seja através dos odores que, por agradáveis, se classificam de perfumes, seja através dos que, correntemente são para a maior parte das pessoas evitáveis: a bosta de boi, o que transpira do couro, do burro ou da mula, do pelo de cabra em transumância pelas escarpas do Atlas, do vulto do camelo, esse grande senhor do deserto, mais antigo que a cidade de Jerusalém.

Pessoalmente, e sem querer infundir qualquer espécie de repugnância aos que franzem o sobrolho perante os cheiros emanados do bafo ou do suor dos animais, eu até nem me incomodo, o que vale dizer que gosto!

 No país dos cheiros, nessa babilónia de variadíssimos odores, até a matéria inodora que se encontra em qualquer parte do mundo, acaba por exalar um não sei quê de estranhamente diferente... E não é que as dunas do sul cheiram a um vermelho delicado? E não é que a trilobite e  a amonite, expostas numa bancada de madeira, à berma da estrada, cheiram a negro fumo, a pó milenar, a morte fossilizada, a fim de mundo ainda que palpitantemente vivos?   E que dizer dos potes de barro quentes pelo sol; das pequenas e macias esculturas de pedra de sabão; do brilho intenso dos transparentes cristais de quartzo ou das violáceas  ametistas, falsas ou reais? 

 Que objeto há, do mineral mais tosco ao vegetal mais daninho, que não cheire, mesmo que indelevelmente,  a um perfume muito seu, muito próprio de pertencer  àquele lugar? Em Marrocos, tudo o que se vê, toca, conhece ou apenas se pressente, tem um hálito, uma aroma e uma sensação a reter para sempre.

 Assim, da terra ao ar, das estrelas ao chão que piso, inumeráveis são os cheiros que se cruzam e penetram tanto nas narinas como nos poros da pele. A própria música árabe, tuaregue e berbere, que outrora foram ouvidas na Península, e que hoje tanto podem vir de uma telefonia de pilhas como das nuvens voláteis ou do sorriso anónimo do olhar de Fátima,  que perpassa como uma brisa, cheira a asa de condor, a sombra de palmeira isolada em campo nu, e a água. 

A toda a água de Marrocos: a que goteja  de uma fonte sedenta; a que se aninha no fundo de um poço branco; a que move os pequenos moinhos das cataratas de Ouzoudde; a que corre pelos sulcos onde há hortas a regar; a que em gelo permanece nos picos que se avistam de Oukaimedene ao longo do verão; a que se transmuda em novelo branco no ar para vir a ser chuva; a que, límpida e serena, abriga os peixes sagrados dos lagos das Gargantas de Todra.

 Água, essa miragem sentida, sempre que me reencontro com o deserto, e que  cheira, na verdade cheira, quando desliza, gota a gota, pelo canto dos meus olhos.





                                                                                                                                        Renato Monteiro, Anos 90












segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Zé do Sal



Primeiro  foram os cabo-verdianos quando, no fim dos anos sessenta, o governo lhes abriu a porta à imigração. O Zé  reside  no Bairro Novo e veio nessa leva. Tinha então 14 anos de idade. Hoje recorda como fugiu e se endividou mais tarde, a doença súbita que, mal chegado a Lisboa, o atirou para o hospital do Rego. Depois de se reestabelecer foi para as obras. Nos primeiros tempos, dormir era pegar em dois ou três sacos de cimento, pô-los no chão e cobrir-se com uma manta.
Agora o Zé, sendo santomense, é cabo-verdiano. Ele explica. Em 1979 foi à Embaixada de São Tomé para tirar o documento. Então, o Embaixador disse-lhe para fazer um requerimento  ao Presidente Pinto da Costa a fim de ter direito à nacionalidade. Esperou pela resposta até ser informado que só ao próprio Embaixador competia legitimar a sua pretensão, de acordo com um decreto-lei , com um número qualquer e uma barra não sei o quê.
Chamado ao Embaixador, este disse-lhe que não tinha direito à nacionalidade, já que havia saído de São Tomé com três anos de idade , não assistindo à independência do país.
Então, o Zé foi ter com outro Embaixador, o de Cabo Verde, que acabou por lhe atribuir  a nacionalidade cabo-verdiana uma vez que os pais eram oriundos do Sal. E a partir daí o Zé passou a ser conhecido por Zé do Sal. 
Hoje tem 38 anos. Casado, com três filhos. É pedreiro. Vive num bairro clandestino. A água que precisa vai buscá-la ao poço e um petromax de campismo substitui o  mágico interruptor da electricidade.
Contratado a prazo, ganha cerca de sessenta contos por mês. E os dedos que tem nas mãos  não chegam para contar as empresas em que já trabalhou.
Como ele, é sabido, quase todos os africanos trabalham nas obras. Lembra-nos que já no início da década de sessenta, o J. Pimenta contratou dez mil patrícios seus. Mas não só de cabo-verdianos vive a construção civil portuguesa. Com a independência das colónias, o rio migratório engrossou e vieram angolanos, guineenses, moçambicanos, santomenses... Na verdade, o Zé pode multiplicar-se por dez, mil, cem mil, que são inúmeros os que como ele vivem em Chelas, na Musgueira, na Estrada da Luz, no Lumiar, na Charneca. Mas também na Damaia, Buraca, Venda Nova e Pontinha. O Zé ouviu dizer que só no Concelho da Amadora há dezasseis mil cabo-verdianos. Foi o Presidente da Câmara que o disse. E se contarmos os que vivem na Outra Banda, no Barreiro, em Almada, na Cova da Piedade? Todos, ou quase todos habitando em casas ou barracas que tantas vezes são mandadas demolir. Quando não  mesmo incendiadas, recorda-nos impressionado com aquele caso da Pontinha em que chegaram os polícias, eram nove, e deitaram fogo...
O Zé desabafa a sua tristeza porque os filhos não vão bem na escola. Chumbam muito. Mas percebe porquê. Afinal, o que se passa com os seus, sucede aos de muitos outros africanos. É  que a língua que se aprende na sala de aula não é nenhuma das línguas que eles falam em casa e nas ruas dos bairros. Não é o crioulo, nem muito menos o mandiga ou o fula da Guiné-Bissau.
O Zé do Sal tem um primo em São Tomé que todos os meses lhe escreve. O sonho dele é aterrar no aeroporto da Portela. Se o Zé o mandar vir, virá como turista ver a família... Entretanto, o Zé  vai dar umas voltas pelos Negócios Estrangeiros e pela Embaixada... 
O primo há-de ser mais um turista, não pode ser imigrante. Depois ficará como estrangeiro. Para trabalhar nas obras. Já se vê!

                                                                                                                     Renato Monteiro-1991, in  revista Nortisul

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