quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Desembarque



Quando a duração dos dias ainda não tinha conhecido a significativa redução horária como actualmente, mal se levantava da cama voava até à varanda para inspeccionar o céu. Então, era assim:

Acaso se mostrasse povoado de nuvens, sem cuidar de lavar os dentes, corria logo para a rua,  com a câmara ao peito e uma peça de fruta tragada às dentadas.

Se o número de nuvens fosse reduzido e com sinais de se volatilizarem muito em breve, saía de casa, sim, mas sem pressa, dedicando largo tempo, quer ao pequeno almoço, quer à higiene pessoal.

À ausência plena de nuvens, prescindia tanto do repasto matinal, como de puxar o autoclismo, atirando-se prontamente  para a cama, esperançado em dar continuidade a certos sonhos abruptamente interrompidos pelo despertador.

Há quem diga que, pousando a câmara debaixo da cama, lhe pedia desculpa pelo mau tempo, prometendo-lhe sempre um dia seguinte auspicioso.

A bordo da Bombaça ( 2 )





Não sei qual matéria atrai tão ignóbeis pragas. Serão o sais de prata? A gelatina ou o acetato? Grande dúvida!...

E também ignoro que bicheza, volátil ou rastejante, deixou - me duas tiras de negativos com tantas ou mais perfurações que as  alfinetadas produzidas por  uma agulha numa renda de bilros!

Seja como for, aqueles fotolitos, ao fazerem parte dos hábitos alimentares das traças ou coisa que o valha, acabam por conferir algum sentido às minhas sortidas em demanda de uma imagem de rua.

E era, na verdade, este reconhecimento que me faltava!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Travessia de S. Marcos ( 2 )



Procuro o meu nome e apelido no Google e deparo com vários.  Acaso pudesse  trocar-me  por um deles, sei lá se não optava por alguém que reunisse um conjunto de propriedades que excedessem as minhas.

Não seria um Fernando Pessoa a (re) vestir-se noutras personagens, mas eu próprio a metamorfosear-me, sem heteronomias, num outro mais contente de si, e só isso!

E é com este preâmbulo que chego a S. Marcos ou à confusão que ainda parece gerar a sua identidade. Afinal, de quem falamos? De Marcos, o evangelista, do primo de Barnabé ou ainda de um outro João Marcos?

Entretanto, como um GPS refaz o trajecto, sempre que se subvertem as indicações prestadas, o melhor é abdicar da hipótese meramente fantasista de me tornar num outro.

É que, mesmo admitindo a mutação por uma figura atraída pela prática fotográfica, ela poderia revelar-se ainda pior do que eu.



Batelão ( Poço do Bispo )





A areia já começara a pesar-lhe tanto que, durante um certo pôr de sol, acabou por decidir não levantar mais o fundo chato do lodo, e apenas dedicar-se  a alimentar os numerosos cardumes que dele se abeiravam.

Com quê? Ora, com o que mantinha até então como intrinsecamente seu:

cavilhas e pregos enferrujados; pedaços de madeira arrancados pelas ondas; fibras de cabos, cacos de vidro, plásticos, pneus, crostas de óleo, tubagens… E tudo isto e o mais com um sabor a sal e algas.

E como a  felicidade não se cumpre em lado algum, pode dizer-se que nunca se sentiu desafortunado, perseguindo-o apenas uma dúvida quando já nada restasse de si:

Para onde é que haveria de encomendar a  sua alma?

Às goelas de uma robusta garoupa,  como uma grande iguaria,  ou deixá-la prosaicamente sepultada na lama?




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