segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Batelão ( Poço do Bispo )





A areia já começara a pesar-lhe tanto que, durante um certo pôr de sol, acabou por decidir não levantar mais o fundo chato do lodo, e apenas dedicar-se  a alimentar os numerosos cardumes que dele se abeiravam.

Com quê? Ora, com o que mantinha até então como intrinsecamente seu:

cavilhas e pregos enferrujados; pedaços de madeira arrancados pelas ondas; fibras de cabos, cacos de vidro, plásticos, pneus, crostas de óleo, tubagens… E tudo isto e o mais com um sabor a sal e algas.

E como a  felicidade não se cumpre em lado algum, pode dizer-se que nunca se sentiu desafortunado, perseguindo-o apenas uma dúvida quando já nada restasse de si:

Para onde é que haveria de encomendar a  sua alma?

Às goelas de uma robusta garoupa,  como uma grande iguaria,  ou deixá-la prosaicamente sepultada na lama?




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