segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Zé do Sal



Primeiro  foram os cabo-verdianos quando, no fim dos anos sessenta, o governo lhes abriu a porta à imigração. O Zé  reside  no Bairro Novo e veio nessa leva. Tinha então 14 anos de idade. Hoje recorda como fugiu e se endividou mais tarde, a doença súbita que, mal chegado a Lisboa, o atirou para o hospital do Rego. Depois de se reestabelecer foi para as obras. Nos primeiros tempos, dormir era pegar em dois ou três sacos de cimento, pô-los no chão e cobrir-se com uma manta.
Agora o Zé, sendo santomense, é cabo-verdiano. Ele explica. Em 1979 foi à Embaixada de São Tomé para tirar o documento. Então, o Embaixador disse-lhe para fazer um requerimento  ao Presidente Pinto da Costa a fim de ter direito à nacionalidade. Esperou pela resposta até ser informado que só ao próprio Embaixador competia legitimar a sua pretensão, de acordo com um decreto-lei , com um número qualquer e uma barra não sei o quê.
Chamado ao Embaixador, este disse-lhe que não tinha direito à nacionalidade, já que havia saído de São Tomé com três anos de idade , não assistindo à independência do país.
Então, o Zé foi ter com outro Embaixador, o de Cabo Verde, que acabou por lhe atribuir  a nacionalidade cabo-verdiana uma vez que os pais eram oriundos do Sal. E a partir daí o Zé passou a ser conhecido por Zé do Sal. 
Hoje tem 38 anos. Casado, com três filhos. É pedreiro. Vive num bairro clandestino. A água que precisa vai buscá-la ao poço e um petromax de campismo substitui o  mágico interruptor da electricidade.
Contratado a prazo, ganha cerca de sessenta contos por mês. E os dedos que tem nas mãos  não chegam para contar as empresas em que já trabalhou.
Como ele, é sabido, quase todos os africanos trabalham nas obras. Lembra-nos que já no início da década de sessenta, o J. Pimenta contratou dez mil patrícios seus. Mas não só de cabo-verdianos vive a construção civil portuguesa. Com a independência das colónias, o rio migratório engrossou e vieram angolanos, guineenses, moçambicanos, santomenses... Na verdade, o Zé pode multiplicar-se por dez, mil, cem mil, que são inúmeros os que como ele vivem em Chelas, na Musgueira, na Estrada da Luz, no Lumiar, na Charneca. Mas também na Damaia, Buraca, Venda Nova e Pontinha. O Zé ouviu dizer que só no Concelho da Amadora há dezasseis mil cabo-verdianos. Foi o Presidente da Câmara que o disse. E se contarmos os que vivem na Outra Banda, no Barreiro, em Almada, na Cova da Piedade? Todos, ou quase todos habitando em casas ou barracas que tantas vezes são mandadas demolir. Quando não  mesmo incendiadas, recorda-nos impressionado com aquele caso da Pontinha em que chegaram os polícias, eram nove, e deitaram fogo...
O Zé desabafa a sua tristeza porque os filhos não vão bem na escola. Chumbam muito. Mas percebe porquê. Afinal, o que se passa com os seus, sucede aos de muitos outros africanos. É  que a língua que se aprende na sala de aula não é nenhuma das línguas que eles falam em casa e nas ruas dos bairros. Não é o crioulo, nem muito menos o mandiga ou o fula da Guiné-Bissau.
O Zé do Sal tem um primo em São Tomé que todos os meses lhe escreve. O sonho dele é aterrar no aeroporto da Portela. Se o Zé o mandar vir, virá como turista ver a família... Entretanto, o Zé  vai dar umas voltas pelos Negócios Estrangeiros e pela Embaixada... 
O primo há-de ser mais um turista, não pode ser imigrante. Depois ficará como estrangeiro. Para trabalhar nas obras. Já se vê!

                                                                                                                     Renato Monteiro-1991, in  revista Nortisul

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